Durante uma visita a uma importante empresa, eu falava entusiasmado sobre minha visão em relação à internalização da sustentabilidade nas organizações.
Eu também não poderia perder a chance de enfatizar a cada instante a importância quando esse processo ocorre em empresas daquela dimensão.
Foi uma reunião muito rica, com várias intervenções, onde certamente dei o melhor de mim, e aprendi muito também.
Logo ao terminar, vi uma pessoa de expressão madura e muito séria, até então imóvel, que pediu a palavra.
Não demorei a perceber que se tratava de uma liderança técnica importante, e seu depoimento colocou algumas dúvidas sobre minha abordagem, a qual buscava integrar os principais fundamentos da sustentabilidade aos objetivos dos negócios.
Decididamente, ele não se convencia de que “somente” atitudes, engajamento, relacionamentos, equilíbrio, e competências essenciais pudessem retirar seus trajes de palavras bonitas, e traduzir os reais dilemas que tem uma organização quando trata de vender seus produtos e serviços no mercado.
Ainda mais quando a sua valiosa marca significasse simultaneamente: um alto valor agregado à sociedade, mas também um indesejável impacto negativo ao meio ambiente.
É dessa contradição, que meu interlocutor reclamava e com razão.
Embora seu trabalho fosse justamente a pesquisa para a sustentabilidade, ele sabia que a melhor alternativa para uma solução definitiva talvez fosse, ironicamente, a extinção do principal produto de sua empresa.
Acredito que ele até esperasse por um inédito argumento. Algo que, como num passe de mágica, mudasse o valor das coisas, e evidenciasse cientificamente que os impactos negativos de tanta tecnologia, pudessem se transformar em algo bom para a humanidade.
E eu, com todo meu entusiasmo, defendia coisas que se materializavam somente como ingênuas compensações, ou palavras bonitas e enganosas.
Em minha opinião, por uma perspectiva específica, ele estava coberto de razão.
Quando inovamos, e criamos desejadas soluções para problemas antigos, beneficiamos milhões de pessoas. Contudo, e inevitavelmente, corremos um alto risco de impactar ainda mais nosso planeta.
Esse lugar comum é a contradição da definição de sustentabilidade, e isso o incomodou.
A má notícia é que os dilemas da “cura com veneno”, do “bem que faz mal”, não nos deixarão assim tão facilmente. As tendências otimistas não escapam do ceticismo em relação a um desejado cenário de equilíbrio no futuro de longo prazo.
E assim, os profetas pessimistas não terão dificuldades para nos convencer sobre os riscos do provável fim do mundo. Eles proliferarão.
Além disso, cada vez mais, valorizaremos a destruição da natureza como um mal necessário, usaremos a ciência e a tecnologia para o bem e para o mal numa mesma escala, buscaremos o poder e a riqueza material a qualquer custo, e enfim, fingiremos que somos donos do mundo.
Nesse contexto, as empresas viverão cada vez mais o desafio de sua própria sobrevivência e a busca alucinada por lucros, proporcionalmente à pressão crescente de suas partes interessadas.
Isso não é nada diferente do que sempre foi desde o princípio dos tempos.
A diferença é que agora já sabemos o que é a ética e a transparência, já conseguimos destruir dogmas nunca questionados, somos chamados a assumir compromissos reais em relação a valores e princípios universais, e ainda somos valorizados por isso.
Com isso, temos condições de mudar nossa atitude, mesmo que ainda contaminada pela inércia do passado, e podemos evoluir para modelos nunca antes imaginados.
Seguiremos transformando lixo em matéria prima valiosa, até que os novos processos não o gerem mais. A ciência descobrirá novas soluções a partir de fontes renováveis dos mais diversos materiais, e de energias cada vez mais limpas.
A educação fará com que os jovens do futuro não destruam, pois simplesmente não conseguirão imaginar a destruição.
Em algum momento, os políticos que abandonam as causas, e defendem o poder, não mais conseguirão sua reeleição. Eles perderão seus eleitores, pois estes inacreditavelmente acordarão de seu transe da ingenuidade e ignorância.
E os consumidores finalmente perceberão o poder de sua capacidade de escolha, e virarão as costas para marcas que vendem o bem, mas entregam o mal.
Meu sonho é que sejamos assim. Que acreditemos, embora nunca percamos a noção da dimensão desse desafio.
Que sigamos em frente, que tenhamos argumentos suficientes para convencer os céticos e pessimistas, e que ao invés de destruir, sejamos uma sociedade finalmente sustentável.
